Tu, cristal em chamas derretido

(…) Tu, que em um peito abrasas escondido, Tu, que em um rosto corres desatado, Quando fogo em cristais aprisionado, Quando cristal em chamas derretido, Se és fogo, como passas brandamente? Se és neve, como queimas com porfia? (…) Gregório de Matos, do soneto ”Ardor em firme coração nascido!”   Não, não havia fogo. Até…

Infância perdida

Como lhe hei-de explicar isto, senhor presidente da junta, o silêncio de uma casa carbonizada. (2017: 12) As coincidências ocorrem quando menos esperamos. Ainda tenho nos olhos as fotografias do Miguel Valle de Figueiredo quando começo a ler o livro de contos da Ana Margarida de Carvalho, Pequenos delírios domésticos, publicado pela Relógio d’Água no final de…

Cinzas

Cortaram os trigos. Agora A minha solidão vê–se melhor. Sophia, O Nome das Coisas, 1977 Não é por estar do outro lado do mundo que as coisas do meu mundo me passam ao lado. Estas não passaram. Nem o incêndio que tudo levou na sua frente, nem as fotografias do Miguel Valle de Figueiredo que me ferem…

No meio do caminho

No Meio do Caminho No meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho Tinha uma pedra No meio do caminho tinha uma pedra Nunca me esquecerei desse acontecimento Na vida de minhas retinas tão fatigadas Nunca me esquecerei que no meio do caminho Tinha uma pedra Tinha uma pedra no…

Hato

Hato, 23 de agosto de 2017 Até dia 23 não sabia sequer que era nome de tufão. E também não consigo lembrar-me da razão por que não saí de casa nessa manhã, enquanto o aviso de tufão se mantinha no grau 3, e não fui buscar os livros à escola como tinha pensado fazer no…

Arquivo de Macau: City. Impression

Passo regularmente pela galeria do IACM, na Avenida Almeida Ribeiro, muitas vezes sem saber que exposição que está a ser exibida. Desta vez, a exposição era de fotografias da cidade de Macau, registadas entre 1960 e 1990, desenhando arquitectura, lugares, quotidiano e pessoas que hoje já não existem da mesma forma. Vi as fotografias sozinha, tentando…

A rose is a rose is a rose et coetera

E nesses primordiais cabelos precocemente cosidos onde poderei afagar as sobras calcinadas do amor, a timidez da luz, um primeiro movimento, uma mãe?   Ano de 2015. Voltei a Coimbra e encontrei-me com o João. Tinha o manuscrito de um novo livro. Li-o e chorei. Falei-lhe do trabalho de fotografia documental que tinha feito com…

Jessabel

Chama-se Jessabel. Pequena, morena, cabelo longo e liso, olhos meio rasgados, sorriso fácil e ternura nos gestos. Jessabel, é o meu nome, mas é complicado de dizer. Podes chamar-me Bella. Chamo-lhe Bella, sim, como me pediu.  Jessabel, um nome que ressoa miticamente dentro de mim, nome de rainha, nome de poder e rebeldia, não diz toda…

Nos teus olhos (capriccio)

Os teus olhos são os meus olhos, como casas caiadas de fresco, lavadas da poalha dourada sobre o rio. O teu coração aquece-me a lembrança de tanto verde e azul e as rochas batidas do sol e das giestas são o teu corpo em que me deito e sacio de todas as horas em que não existes. Amar-te-ia…

É a tua cidade

Sabes que cidade é esta onde caminhas pela rua a sorrir e paras a cada momento para um abraço? Sabes que cidade é esta onde o teu coração está em casa? Sabes que cidade é esta em que te envolves e sabes que não podia ser de outra maneira? Sabes que cidade é esta que…

Será mesmo laranja ou só procura?

laranja Talvez seja laranja o sol poente ou quase cor de sangue – esse andarilho; laranja como o lume, quando é filho da noite onde o vermelho se pressente. Talvez seja laranja que desmente as cores do arco-íris que dedilho… Laranja ou só um risco ou só um trilho de pele a anoitecer tão levemente?…

Insolitus

Há um poema de Eugénio de Andrade que fala do insólito e não consigo encontrá-lo. Ele diria tudo o que eu tinha para dizer desta fotografia e da impressão que voltei a ter agora, quase cinco meses depois do registo. Mas não encontro… é uma pena. © Sara Augusto, 2016, Serra da Estrela.