Ut pictura fictio

Congresso 1580-1834: Novos trilhos de pesquisa. Barroco, Ilustração e Romantismo e a sua irradiação na atualidade. Budapeste, 7 e 8 de Novembro.

Muito pouco está estudado da Literatura Barroca em Portugal. Os novos trilhos são os antigos trilhos. E continuarão a ser enquanto não houver uma política séria de edição dos textos. Retomando e projetando trilhos de pesquisa foi esta a minha proposta de estudo:

Ut pictura fictio. Ficção romanesca do maneirismo e do barroco

R. Burton, Choice emblems (…) or Delights for the ingenious. London. E. parker. 1732. Emblem 27.

Síntese: A leitura atenta da ficção romanesca barroca levanta questões pertinentes no que diz respeito a campos diversos: os géneros literários, desde a novela pastoril dos inícios do século XVII até à novela alegórica da primeira metade do século XVIII; as características que definem a transição entre os géneros narrativos, da novela pastoril para a novela de aventura e de entretenimento, da novela exemplar para a novela alegórica; a miscigenação entre formas narrativas e líricas; e a representação alegórica. É sobretudo este último ponto que me interessa ter em conta.
Com efeito, a alegoria constitui um dos elementos omnipresentes na ficção romanesca maneirista e barroca mas não um procedimento específico desenvolvido nesta época: tem raízes profundas tanto na tradição clássica como na tradição medieval, das quais o maneirismo e o barroco representam uma síntese assaz complexa. Dessa tradição conjunta adveio o conceito de alegoria como tropo retórico, que se manteve nos manuais até ao século XVII, e que fundamenta a alegoria na translação de sentido (a translatio), facto possibilitado pela analogia ou por outro grau de partilha entre os dois universos, o da ficção e o da leitura. Mas já essa tradição ofereceu também à literatura seiscentista outros aspetos que se tornariam nucleares: a relação entre fictio e alegoria, facto que desde logo legitimou a fuga ao discurso mimético; em segundo lugar, a extrema capacidade visual e plástica do enunciado alegórico; por último, a alegoria como forma discursiva com excecionais potencialidades didático-morais, virtude que decorria da feição apelativa como prefigurava conceitos moralizadores e verdades universais.
Tendo em conta os aspetos enunciados, a conceção da alegoria como ponto de análise permitiu uma necessária arrumação, cronológica e genológica, da ficção romanesca, definindo a estrutura narrativa e a sua funcionalidade no contexto literário em permanente mudança desde os inícios do século XVII. Para além disso, permitiu sobretudo considerar a visualidade como parte essencial da alegoria, construída no ato de «dar a ver» uma imagem através de outra, um conceito por outro, e ter em conta as estruturas visuais envolvidas. Os emblemas, a descrição, a ecfrasis, a metáfora e as imagens, são elementos que concorrem para uma diversidade que se torna determinante na prossecução da dicotomia que define a literatura ficcional barroca, o prodesse e o delectare.
Sobre todos estes aspetos, definindo um percurso por entre a ficção maneirista e barroca, procurará mostrar-se o peso e alcance da «visualidade».

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