Diabo Coxo, de Joaquim Manuel de Sequeira Bramão

Diabo Coxo
Diabo Coxo, gravura

Decorre esta semana na Universidade de Aveiro (dias 5, 6 e 7) o Congresso internacional comemorativo dos 25 anos da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, subordinada ao tema Pensar o Comparatismo: impulsos. impasses. perspectivas.

Apresento com a Marta Teixeira Anacleto um trabalho do maior interesse no âmbito da reescrita e do prolongamento de temas da literatura barroca: «Existência e resistência do imaginário barroco: a reescrita do motivo do Diablo Cojuelo no Diable Boiteux e no Diabo Coxo». Esta apresentação decorre do projeto desenvolvido no âmbito da linha de investigação «Poéticas» do Centro de Literatura Portuguesa, que envolve o estudo e a edição do manuscrito da versão portuguesa do Diabo Coxo. Depois de ter transcrito o texto, voltei a lê-lo com calma e a deliciar-me com a ironia do demónio Asmodeu e do seu companheiro Dom Cleofas, estudante intrépido e amoroso, e as metadiegeses que, à medida da ficção barroca, ampliam extraordinariamente as categorias do tempo, do espaço e das personagens.

Haverá tempo para a presentar melhor a novela «exemplar», e discutir também esta «etiqueta». Por agora, transcrevo apenas partes do Prólogo ao Leitor, paratexto fundamental para estabelecer os pressupostos que orientaram a produção da versão portuguesa:

Diabo Coxo, Joaquim Bramão, folha de rosto
Diabo Coxo, Joaquim Bramão, pormenor da folha de rosto

«Aqui tens hum Livro, e por consequencia hum Prefacio: he o costume. Devo prezumir que não o lerás: quazi sempre assim succede. As ideas de fastio, e de Prefacio ha muito que andão tão ligadas que sem huma se não encontra a outra. (…) He o Diabo coxo que vem pregar a Portugal, nome escandalozo, e dissonante dirá algum Devoto! Não importa: a virtude he immutavel, e nada perde em ser aconselhada por hum máo Espirito: e assim como ha devotos de quem as accçoens se não devem seguir; devem haver depravados cujas doutrinas se devão roubar. Na Espanha aonde se suppoem dever esta obra a sua invenção, e na França aonde se fundio, e amplificou ainda não foi taxada de semelhante defeito (…). Com effeito deveria negar-se estimação a hua Obra em que debaixo das apparencias de jucoza bacatela transluzem as mais sabias instrucçoens de Moral, e da Politica? Não estamos de prevenção contra os preceitos: o prazer só nos agrada; mas nelle sempre exigimos razão, e regularidade. Sem duvida que Asmodeo guisou ao nosso gosto: devemos por isso crer que o seu discipulo aproveitou com elle mais em huma noite do que em tantos annos com os Doutores de Alcalá. Estes lhe tinhão apenas ensinado alguns confuzos principios de huma Jurisprudencia pouco analoga com a de seu paiz; um lugar de que no Coxo Mestre achou hum Director habil, que em aprazivel quadro lhe fez perceber perfeitamente todos os defeitos dos homens, e com destreza o corrige sem o opprimir de fastidicos preliminares. (…) Ainda assim, prevendo eu a aluvião de escrupolozos de que tanto abunda o nosso Estado fiz quanto soube na estreiteza do meu talento para que elles não topassem com alguma couza que lhes desse que roer. Para o intento não só omitti muitas das passagens do Addicionador Francez, senão que em seu lugar substitui o que me pareceu mais interessante; e esta alteração abranje certamente huma boa terça parte de toda a obra. Tenho que este roteyo me não desaira. Se Monsieur le Sage tomou a liberdade de fundir El Diablo cojuelo de Luiz Vellez de Guevára, e de o compor ao gosto da sua nasção; por qual diverso motivo não tomaria eu igual liberdade refundindo le Diable Boiteux de Monsieur le Sage, e vestindo-o ao gosto Portuguez? A Moral he em todo o mundo a mesma: mas ha certas extravagancias que sendo proprias de um paiz, são em outro desconhecidas, e he por não reflectir nesta differença que certo orador pregando em huma pobre aldéa, aonde apenas havião duas carretas velhas, se esbofou em declamar contra o nimio fasto das carroagens (…).»

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