Padre Matias de Andrade (1680-1747, Congregação do Oratório)

Sara Augusto. «Para a ‘perfeita ordem e harmonia na república da alma’. A Guerra Interior, de Matias de Andrade (1743)». In A Guerra Interior  de Matias de Andrade (1743). Viseu, Quartzo / CLP: 15-18.

Freixo-de-Espada-A-Cinta
Igreja da Congregação do Oratório, em Freixo-de-Espada-à-Cinta.

O manuscrito da Guerra Interior, datado de 2 de Maio de 1743, é da autoria do Padre Matias de Andrade, da Congregação do Oratório de Freixo de Espada à Cinta. Instalada em Lisboa, em 1668, por mão do Padre Bartolomeu de Quental, esta congregação constituiu uma das instituições mais significativas em termos de pedagogia, de espiritualidade e missão no quadro dos séculos XVII e XVIII em Portugal. A segunda casa da Congregação, em Portugal, foi a de Freixo, em 1673, promovida pelo Padre Francisco da Silva (Santos, 1982: 127-132). A partir da década de oitenta, os créditos desta Casa consolidaram-se, distinguindo-se pelas suas duas vertentes principais, a missionação e a actividade pedagógica. Com a saída do Padre José de Caldas, para fundar a casa de Viseu, e com a eleição de um novo prepósito, o Padre Manuel da Guerra, tio de Matias de Andrade, a Congregação conseguiu recompor-se, apesar de pouco numerosa, e manteve-se com um funcionamento regular até à extinção das ordens religiosas (Santos, 1982: 85).
Sobre o autor, o Padre Matias de Andrade, para além das poucas informações lidas em Barbosa Machado e Inocêncio da Silva (Biblioteca Lusitana, vol. III: 452-453; Dicionário Bibliográfico Português, vol. XVII, 1894: 14), em apenas duas linhas incorrectas e incompletas, bastante esclareceu e acrescentou Eugénio Francisco dos Santos, cujas indicações se seguem neste trabalho, tendo sido também uma das suas obras estudada por Telmo Verdelho (Verdelho, 2002). Para a constituição do perfil biográfico do oratoriano, Eugénio dos Santos recorreu à Relação dos Padres e Irmãos que tem florecido em virtudes e letras nesta Congregação do Oratorio da Villa de Freyxo de Espada à Cinta (Santos, 1978: 250-255): nasceu em Castelo Rodrigo, a 24 de Fevereiro de 1680, provindo de família abastada e considerada; foram seus pais Salvador de Barros de Araújo e Maria de Andrade, irmã do Padre Manuel da Guerra que se recolheu à Casa do Freixo em 1685. Para a sua formação inicial, Eugénio dos Santos constrói um percurso plausível, acompanhando a preparação intelectual, talvez até na própria Congregação do Oratório do Freixo, com a formação religiosa de Matias de Andrade. Estudou Filosofia na mesma Casa da Congregação, onde também terá estudado Teologia, se o não tiver feito em Coimbra (Santos, 1978: 252).
Em Maio de 1706 entrou como noviço na Congregação do Freixo, tornou-se congregado um ano depois e foi ordenado em Outubro de 1707. Distinguiu-se pela “afabilidade do seu trato, cativando companheiros, criados e estranhos com quem privava e não menos também pela acuidade da sua inteligência e bagagem de conhecimentos que adquirira” (Santos, 1978: 252). À imagem do tio padre Manuel da Guerra, começou por ensinar filosofia e teologia especulativa. Reconhecidas as suas capacidades, foi solicitado pela Congregação de Braga para reger Teologia, mas em 1730 tinha regressado ao Freixo. Matias de Andrade era também conhecedor de história profana e sagrada, com que ilustrava sermões e práticas, e dedicou-se com zelo ao “ministério das missões” e à leitura de obras místicas, “sendo por isso afeiçoadíssimo às obras de S. Bernardo, S.to Agostinho, S. Francisco de Sales e S.ta Teresinha de Jesus” (Santos, 1978: 253), autores que com frequência citou nas suas narrativas e tratados místico-morais.
Foi também encarregado do governo da Casa da Freixo, concluindo obras na capela-mor da igreja, “em vigoroso estilo barroco” e, no que dizia respeito à sua vida pessoal, “sempre viveu desprendido, sendo reduzido e muito pobre o mobiliário do seu quarto. Tudo o que recebia (…) ia distribuindo pelos pobres e era tal a sua prodigalidade que, quando faleceu, seu irmão teve que pôr do seu bolso certa quantia para se poderem cumprir as cláusulas do seu testamento” (Santos, 1978: 253-254).

Cultivou a oração mental, que incutia nos que o rodeavam; reprovava a ociosidade, ocupando-se com trabalhos manuais sempre que precisava de descansar do trabalho do espírito, e impelia os seus congregados para uma vida de constante estudo. Faleceu a 22 de Dezembro de 1747 e dele ficou a descrição do biógrafo que o conheceu pessoalmente:

Folha de rosto da Guerra Interior
Folha de rosto da Guerra Interior

‘Foy de estatura mediana, cor trigueira, testa espaçosa, o rosto propendia mais para comprido que redondo, olhos pequenos, mas vivos, o restante corpo bastantemente falho de carnes, e de constituição seca’. Apesar de ser um asceta e um contemplativo, era ornado de raras qualidades humanas, adaptando-se facilmente a qualquer auditório que o escutava com agrado: ‘Era naturalmente tam grave e modesto em todas as suas palavras e acçoens que edificava e juntamente atrahia os coraçoens de todos os que o chegarão a tratar, ainda que por breve tempo, acomodandose de sorte no trato e conversação ao estado, a profição e qualidade das pessoas que o comunicavão que se fazia geralmente amado de todos, assim como nobres como plebeus, ignorantes como sabios’. (Santos, 1978: 255)

Bibliografia:

Machado, Diogo Barbosa (1965-1967). Biblioteca Lusitana. Coimbra, Atlântida Editora.
Santos, Eugénio Francisco dos (1978). “A crise de consciência em Portugal no século XVIII: uma tentativa de análise e superação. A obra do P.e Matias de Andrade (1680-1747)”. Revista de História. Porto, INIC/Centro de História da Universidade do Porto, 245-280.
Silva, Inocêncio Francisco da (1858-1923). Diccionario Bibliographico Portuguez. Lisboa, Imprensa Nacional.
Augusto, Sara (2007). “A Guerra Interior: ficção narrativa alegórica”. In Isabel Almeida, Maria Isabel Rocheta e Teresa Amado (orgs.), Estudos para Maria Idalina Resina Rodrigues, Maria Lucília Pires, Maria Vitalina Leal de Matos. Lisboa, Departamento de Literaturas Românicas/Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 821-835.

Anúncios

3 Comments Add yours

  1. NETPIN diz:

    Valioso trabalho de investigação.
    Parabéns Sara!

    1. Sara Augusto diz:

      E deu-me gosto, meu amigo! Um abraço e obrigada pelo gosto que também me dá em vir aqui.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s