Um mundo interior abreviado dentro de si mesmo

Sara Augusto. «Para a ‘perfeita ordem e harmonia na república da alma’. A Guerra Interior, de Matias de Andrade (1743)». In A Guerra Interior  de Matias de Andrade (1743). Viseu, Quartzo / CLP: 15-18.

«Não é fácil definir de forma exclusiva o género da Guerra Interior, uma vez que, assentando numa narrativa simples, onde as personagens e o tratamento do espaço adquirem primazia sobre as restantes categorias, as características definidoras do diálogo e do tratado moral assumem também um papel importante. Mas já não se torna tão complicado explicar a estrutura alegórica que define esta obra.
O enredo é relativamente simples, sem apresentar a imbricada sobreposição de níveis narrativos, narrativas analépticas e de narradores de segundo grau, estratégia comum na narrativa barroca. A ausência de uma segunda narrativa não implica contudo que não se encontrem dois níveis distintos. Na verdade, é na forma como eles se estabelecem que reside o maior interesse desta narrativa aparentemente simples: não é o tempo que define os dois níveis mas o espaço e a ficcionalidade. Sem interromper a linearidade temporal, é pela arte de um objecto mágico que as personagens são transportadas para um outro espaço paralelo, de dimensão claramente alegórica, uma dimensão interior. Assim, é pela causalidade mágica, que permite contornar a verosimilhança e criar mundos situados num nível distinto da realidade, marcado apenas pelos limites da fantasia e da imaginação, mas também da tradição, que se começa a definir a alegoria.»

Convencendo o Soldado de que devia conhecer-se a si mesmo, o Companheiro leva até às últimas consequências a sua estratégia: por acção de um licor, transporta o soldado para dentro de si mesmo:

Dizendo isto, tirou do seio ũa redoma de finíssimo ouro, que estava cheia de um licor suavíssimo e tão sobremaneira cheiroso (…). Aplicou-lhe o Companheiro aos lábios a redoma e mandou-lhe que gostasse um pouco daquele licor suavíssimo. Obedeceu ele, e o mesmo foi gostá-lo que dilatar-se-lhe o coração em um tão veemente e sobrenatural júbilo, que difundindo-se suavemente aos sentidos externos e internos lhos deixou alienados, sem algum uso, ou exercício, ficando insensível e como morto, finalmente extático. (…) Logo, sem saber como, nem de que modo, abriu os olhos do espírito, e viu o seu Companheiro ao lado direito, e que se achavam em ũa região nova, tanto mais admirada quanto mais dele desconhecida. Estendeu a vista, e descobriu uns espaços quasi intermináveis alumiados de ũa claríssima luz muito diferente da do sol, e de mais alta e superior esfera incomparavelmente. Ofereceram-se-lhe tantas cousas juntas, tão várias, tão formosas, tão estranhas e admiráveis, que estava absorto, pasmado e atónito. O que via não eram campos, não outeiros, não montes, não vales, não jardins e florestas, não cidades e povoações, que são os objectos deleitosos e aprazíveis, que se costumam no mundo oferecer aos olhos corporais. Não via ar, não fogo, não águas, não céu, não sol, lua, ou estrelas, senão outras cousas mais puras, mais diáfanas, mais excelentes, mais protentosas, enfim cousas que ele de antes nunca vira, nem conhecera. (12-12v)

Jardim das deliciasNesta outra realidade, “um mundo interior abreviado dentro de si mesmo”, desde logo se desenhou a antagonia que conduz à guerra interior, uma vez que à vista do Soldado se estendiam duas cidades “de primorosíssima e prodigiosa fábrica e admirável arquitectura, ũa situada em o mais alto de um monte, e a outra em ũa grande planície ou em um vale”. A forma de cada uma (a primeira era esférica e rodeadas de muros, com altas torres e um castelo inexpugnável; a segunda era triangular, com fortes muros e palácios magníficos: 12v-13), que pretendem ser uma representação do entendimento e do coração, e a referência ao lago e aos rios, que corriam de uma para a outra cidade, são um sinal inequívoco da íntima relação entre os dois espaços antagónicos, o espírito e o corpo.

Tríptico: O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, 1504, Museu do Prado, Madrid.

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