Não mais amarei quem possa morrer

Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser…

Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal,
Sophia de Mello Breyner

Gravura 2

Tenho em mãos a arguição de um projecto de doutoramento subordinada ao tema da «Imago mortis, cultural visual, ekphrasis e retórica da morte». E, como acontece algumas afortunadas vezes, os acontecimentos, tão separados no tempo e nas intenções, mas não nos seus laços temáticos, conjugam-se e chegam a um desenlace.

A imagem da morte é uma das mais fortes da mundividência barroca e aquela que potenciou as melhores e mais sentidas metáforas, os lamentos mais vivos, as representações mais plangentes, os avisos mais prudentes. Dividido entre um limite bem marcado entre pecado e virtude, entre o carpe diem e a consciência de um inesperado Juízo Final, a representação literária e visual da morte lembrava constantemente a efemeridade da vida humana e das coisas do mundo, da vanitas, da beleza, do amor, colocando em Deus o único refúgio da alma humana, amparada pelas virtudes na sua peregrinação por este «vale de lágrimas». É esta alegoria do homo viator que preenche versos e versos da lírica barroca, capítulos e mais capítulos da ficção maneirista e barroca, insistindo na necessidade premente de escolher, guerreando interiormente a natureza pecadora do corpo e do desejo, não perdendo de vista a recompensa a ser dada num «reino que não existe neste mundo»(Mateus 11,25-30).

Gravura 3

Mais do que a celebração da vida, na época barroca celebrou-se a morte. Os rituais das exéquias, sobretudo das exéquias reais, são um dos exemplos de como a codificação, que caracterizava mais do que qualquer outro aspecto a estética barroca, atingiu magnificamente o último acto da vida humana.

É sobre as exéquias celebradas em Viseu, em 1750, em memória do magnânimo D. João V, ordenadas pelo bispo D. Júlio Francisco de Oliveira (prelado na cidade entre 1741 e 1765), que trato no artigo «Memória das Exéquias de D. João V na catedral de Viseu», que será publicado no próximo número da revista Viseu.M (quase fénix…). Fica o resumo para aguçar a leitura:

Gravura 1

O reinado de D. João V, no esplendor do absolutismo, potenciou uma produção escrita de carácter panegírico, mas com incursões significativas no campo da parenética e da memória descritiva, que tomou todos os momentos da vida do monarca. Do nascimento à morte, todos os momentos foram alvo de celebração e tema de abundante produção literária. As exéquias ocupam a maior fatia desta produção, interessando-nos a Relação das exéquias, celebradas na Igreja Catedral de Viseu, no ano de 1750, contadas pelo Padre Manuel da Cunha num opúsculo datado de 1751. A descrição destas cerimónias constitui um documento único da arte efémera barroca em Viseu, tornando-se significativa por vários aspectos: em primeiro lugar, pelo enquadramento perfeito nos códigos do discurso emblemático e moral, centrados nos dois temas mais evidentes, a efemeridade da vida humana e a celebração do poder da monarquia; em segundo lugar, a descrição coloca Viseu ao nível das grandes representações cosmopolitas que tiveram lugar por todo o mundo português, mas sobretudo na corte de Lisboa e em Roma, em Santo António dos Portugueses.

Palavras-chave: arte efémera, literatura barroca, D. João V, Viseu, memória, emblemática.

Pormenores da gravura publicada em Relação das Exequias, que pela Alma do Fidelissio Senhor Rey D. João V celebrou na Santa Igreja Cathedral de Viseu o Excellentissimo, e Reverendíssimo Senhor D. Júlio Francisco de Oliveira, Bispo de Viseu, do Conselho de Sua Magestade, etc. Composta pelo Padre Manoel da Cunha, Mestre de Rhetorica no Seminario Episcopal da mesma Cidade. Lisboa, na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real. 1751. (Fotografias por sara a.)

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