Mui comprida de soberba

Confesso. É só uma pontinha, assim miudinha, quase imperceptível… mas tem nome e chama-se vaidade. E lá estão pelo menos cinco volumes, alinhadinhos, entre o meu casal de Sargadelos, todos iguaizinhos, a dizerem que já cá estão e com muito gosto!

GI e Sargadelos

Matias de Andrade não fala de «vaidade» mas fala abundantemente da «soberba», quase sinónimo. Tomando o exemplo de Prudêncio e da sua Psicomaquia, motivo que se prolongaria por toda a literatura espiritual posterior, descreve o temível combate entre as Virtudes e os Vícios que ao Soldado era dado contemplar, num espaço maravilhoso dentro de si mesmo:

Os dous atletas e contendores, que se seguem dipois da mansidão e a vingança, são a humildade e a soberba. E certamente vos não fará menor novidade ver o arbítrio que contra este vício usou aquela virtude para alcançar dele triunfo. Quem dissera que contra um vício tão prócero, tão inchado e tão altivo, e de tão desmedida grandeza, se havia de opor ũa virtude tão rasteira, tão abatida, e ao parecer tão fraca, como é a humildade? E quem dissera que não só se havia de opor, senão que havia de vencer e triunfar? Não o dissera quem só atendesse às aparências e exterioridades, sem olhar para a substância e medula das cousas. A Soberba, sendo como é um vício aério e sem fundamento, tem muita semelhança com aqueles ténues vapores que se levantam da terra e sobem à região do ar, aonde, condensando-se em nuvens, oferecem a nossos olhos várias e protentosas prespectivas: já formam altíssimas torres, já elevadas montanhas, já formidáveis castelos, já outras figuras a este modo. Mas todos estes aparatosos fenómenos se desvanecem e desfazem ao leve [42] sopro de um pouco de ar, que as dissipa e faz desaparecer de instante a instante. Pois eis aqui, nem mais, nem menos, o que sucede ao vício da soberba com a virtude da humildade. Opõe-se contra a humildade a soberba com atrevida arrogância, fiada na sua agigantada e fantástica grandeza, e para a oprimir se eleva como nuvem aéria, supondo que contra tão elevada e aparente máquina se não há-de atrever a pequenhez da humildade. Mas engana-se a miserável, porque bem assim como para arruinar e reduzir a miúdas cinzas aquela soberbíssima estátua de Nabuco, composta de todos os metais, bastou o leve toque de ũa pedra, que desceu de um monte sem ser impelida de mão visível algũa, assim para dar em terra e reduzir a nada o fantástico colosso da soberba, basta um pequeno sopro da humildade. Antes o abater-se esta aos pés da soberba é o sinal mais evidente da sua ruína, assim como o foi daquela estátua o abater-se a seus pés a pedra.
Promete-se o soberbo ũa eterna duração na sua grandeza, supondo que não haverá quem resista à sua força e soberania, mas, quando ele assim o cuida impensadamente, sucede que qualquer leve acidente dê em terra com toda aquela máquina, que a soberba fingia perdurável na sua fantasia. Diga-o aquele tão soberbo como disgraçado valido d’el Rei Assuero, chamado Haman, o qual no mesmo dia em que, fiado na sua privança, premeditava arruinar ũa nação inteira, acabou ele a vida ignominiosamente pendurado de ũa forca. De maneira que, no teatro deste mundo, tão brevemente se muda a cena do soberbo, que quando se considera mais entronizado, então cai e se arruína todo aquele aparatoso edifício. Enfim, é o que diz o profeta Rei: vi (diz ele) o soberbo exaltado sobre os cedros do monte Líbano, mas quando tornei a passar já não vi, já não aparecia, já não era, et transivi, et ecce non erat [Livro dos Salmos, 36:35-36]. Tanta é a instabilidade da soberba, tão facilmente se arruína ao leve sopro da humildade. (A Guerra Interior, 2012: 131-132)

Triunfo das Virtudes (1502, Louvre). Andrea Mantegna (1431-1506)
Triunfo das Virtudes (1502, Louvre). Andrea Mantegna (1431-1506)

«Altíssimas torres, já elevadas montanhas, já formidáveis castelos, já outras figuras a este modo»… não chego a tanto! Dias e dias passados em bibliotecas, sentada na minha secretária, no meu pátio, em silêncio, totalmente absorvida pela leitura dos manuscritos, deram-me uma noção muito clara do valor de cada hora.

De qualquer modo, por estes dias prefiro não tomar qualquer licor que me leve para o mundo abreviado de mim mesma… posso querer que a soberba vença e construa mais torres altas… e efémeras.

O melhor é mesmo arrastar mais alguém para a cidade da perdição! A Marta Teixeira Anacleto, por exemplo, que fez um magnífico prefácio; a Evelina e o Telmo que tantas sugestões me deram quanto às normas de transcrição; a Fátima Eusébio que releu com tanto cuidado a introdução; a Rute Augusto que fez a capa perfeita; o Roy Ayres que insistiu com a máquina fotográfica até conseguir um bom registo para a badana; o António José Coelho que tratou desta  guerra interior como se fosse coisa própria sua… o Centro de Literatura Portuguesa que acolheu esta edição. Muito obrigada! Hoje estamos todos «mui compridos de soberba»! e de parabéns.

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