Dois rios

Tatiana Salem Levy
Tatiana Salem Levy

Tatiana Salem Levy, Dois Rios, Lisboa, Tinta da China, 2012.

NOTA: a leitura dos romances de Tatiana Salem Levy tem sido uma descoberta constante. Não são fáceis de ler. O discurso de memória, de reflexão, a fragmentação narrativa, quase manipuladora, determinando o acesso às informações necessárias para a construção de um sentido válido, obrigam a duas leituras, ou mais ainda, de preferência com lápis na mão. Mas começo a ler estes romances como se os conhecesse há muito tempo.

Copiei alguns capítulos de Dois Rios, para aguçar a vontade a algumas almas de lerem e de me ouvirem, quem sabe, na quinta feira, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

cap. 41 (I)
Arrumávamos a mala às pressas, os dois chorando muito. Aproximei-me de Antonio, abracei-o com força, para ter a certeza de que estava ali e era meu, e, com a voz rouca, soluçando, pedi-lhe:
– Promete que nunca vai morrer?
Ele engoliu o choro e, balançando a cabeça, respondeu que sim. Depois devolveu a pergunta:
– E você, também promete?«Prometo», eu disse, «prometo», e ficamos dos dois abraçados, repetindo a palavra mágica, prometo, prometo, sabendo que a promessa era impossível, mas sabendo também que só ela era impossível, nada mais.

Cap. 50 (I)
– Você não tem medo de que alguma coisa ruim aconteça?
– E por que aconteceria?
– Não é sempre assim: depois da alegria, a dor?

Cap. 61 (I)
– Só o real importa, Joana. O mar, a areia, o sussurro da mata. Esquece o resto. Seus medos tolos, sua ansiedade, essa fantasia que, em vez de te soltar, te prende. Escuta o vento, as ondas rebentam zombeteiras. A vida é isso, a concretude das coisas que se mostram ao nosso olhar. O resto, Joana, não tem importância alguma.
– A vantagem de viver no tédio é saber que o desastre nunca te alcançará.
– Vem cá, me abraça. Às vezes você parece uma criança.

Cap. 50 (II)
(…) Desde que você partiu, Marie-Anje, todos os dias são o dia em que você partiu.

Cap. 67 (II)
Marie-Anje, Marie-Anje, Marie-Anje: é isso estar apaixonado, repetir seu nome como um mantra? Ouvir seu nome em todas as palavras, ver seu rosto em todas as paisagens? Desde que você partiu, Marie-Anje, você é o mundo inteiro.

Cap. 91 (II)
Você estava me ensaboando na banheira e, depois de um momento em silêncio, me perguntou: quando você foi mais feliz? Agora, eu respondi. E quando foi mais triste? Agora, eu respondi.

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2 Comments Add yours

  1. Parece “pesado”, mas bom! 🙂

    1. Sara Augusto diz:

      O primeiro livro (2007), A chave de casa, é mais pesado. Mas são os dois igualmente interessantes. Abraço!

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