Emergir

Não fui eu quem escreveu
tristinfinitamente.

Luís Belo, emergir, medíocre, 2013, p. 12.

Percorro lentamente as páginas a sépia e a preto e branco de emergir.

Lembro-me muito bem da primeira vez que vi o Luís Belo e as suas fotografias de Viseu. Foi na Fnac, como resultado de sucesso num concurso fotográfico. Fui sabendo dele de quando em quando, mas com mais atenção na instalação da Casa do Tempo. Demorei-me naquela exposição e naquela casa, presa do encanto da clarabóia, da combinação campestre e doce do amarelo e do azul, da visão dourada do passeio dos cónegos ao pôr do sol, do despojamento que me fazia querer estar.

Volto a imergir. Livro pequeno e intenso. São trinta e seis páginas envoltas numa capa de tons sépia que me lembra velhas pinturas japonesas. A sugestão não é de todo imprevisível. Vi muito mais naquelas fotografias. Li muito mais naqueles versos.

No interior estão trinta e cinco fotografias a preto e branco, magnificamente legendadas com o mesmo número de poemas. Poucas linhas, sentido concentrado, entre o apontamento quotidiano e o lírico acentuado feito da metáfora certa e medida. Passo folha a folha, leio o texto e a imagem, expressão única de momentos e de gentes. Não consigo deixar de me lembrar de Alciato e de outros construtores de emblemas, uma das realizações mais engenhosas dos séculos XVI e XVII, conjugando a gravura com o mote e a letra.

A proposta solta-nos a imaginação e a memória: «uma viagem pelos sítios de uma infância que não vivi». Acrescento que pelos lugares e pelos corpos e rostos, entre a espera e o movimento, iluminados pela luz de frestas e janelas desenhadas na sombra. Uma viagem pelas coisas, que parecem ganhar dimensões de gente, ocupando o espaço como se bailassem, suspensas na luz, levantando os olhos, à procura de existirem, de «emergirem» da sombra.

A publicação é da medíocre. No link acedemos a algumas páginas do livro. Não há volta a dar. O convite está feito.

Na p. 15 há uma fotografia que me prende a atenção: entre portas, uma figura feminina, vestes antigas, avental e lenço, cabelo apanhado como a avó Rosinha, quase de costas, apenas parte da face iluminada por uma luz que vem de fora. Vermeer, murmurei. Muito bom, murmurei outra vez. Muito bem, fui dizendo a cada imagem, a cada verso.
«Há esperas que sabem melhor ao amanhecer» (p. 18). Sim, «Podíamos morar aqui, ou em qualquer lugar onde estivesses também. Como se a casa fosse o teu peito» (p. 33). E sorri, absolutamente rendida.

Nota: foi um gosto enorme fotografar o Luís Belo, numa inversão de papéis que nos divertiu. Bem, suponho que o Luís estava divertido, sobretudo quando percebia cada movimento da minha lente muito antes de eu saber sequer o que estava a tentar fazer. Mas o Luís é como as flores do meu quintal, bonito, calmo e pacífico. Depois de tudo ainda fez o favor imenso de me fotografar uma gravura do século XVIII, que já referenciei no artigo a publicar brevemente.

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