Separador central

Passou uma semana, passaram duas, mais meia. Por quanto mais tempo aquele tapete cor de rosa ia ficar assim? De cores vivas, a prender-me os olhos naqueles 200 metros de fartura de cor ondulante?

Domingo, talvez fossem dez horas e meia, lá estava eu. Os domingos costumam ser proveitosos… Às nove arrumara a máquina no carro e quando saí da igreja decidi-me. Amanhã está a chover, agora não está, tem de ser hoje. Estacionei num lugar possível, atravessei a estrada para o separador central e baixei-me. Os primeiros resultados foram maus, sem enquadramento, tudo torto, tudo sem sentido, tudo longe do que a minha imaginação achava que eu conseguia fazer. Encolhi os ombros, decidida a ir embora, ou a fotografar as florinhas uma a uma. Tem sido uma opção a que alegremente recorro. Até as florinhas diferentes um dia esgotarem, ideia que me deixa sobremaneira angustiada.

Depois pensei, olhei de outra forma, enruguei a testa, torci os lábios, suspirei. Não havia remédio… pensei no meu casaco novo e nas calças que tinha vestido… nos carros que passavam e abrandavam, curiosos… quem seria aquela alma abandonada num separador central? Paciência… Divertida (divirto-me sempre quando estou a fotografar sozinha), deitei-me no chão, naquela faixa estreita do separador, e aumentei o campo de visão de milhares de florinhas cor de rosa.

Não ficou como eu imaginava. Eu imagino sempre coisas perfeitas que, a maior parte das vezes, não sei e não posso mesmo fazer com esta objectiva básica. Mas gosto desta fotografia. E não me enchi de lama nem de erva… quando cheguei ao pé da minha avó e lhe contei, ela riu-se comigo e perguntou pelas fotografias que eu lhe tinha feito há uns tempos atrás. Que também era uma flor que ficava quietinha enquanto eu a fotografava. Imaginei-a sentada naquele separador, com o cabelo branco entre as flores. Então rimo-nos com vontade. Foi bom.

separador central

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2 Comments Add yours

  1. Inevitável deixar-te um sorriso. Que bom que e sentir como te preenche a fotografia 🙂

    1. Sara Augusto diz:

      O sorriso deixado soube bem!

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