Da sátira ao moralismo

B. Gracián
B. Gracián

Poco es conquistar el entendimiento si no se gana la voluntad.
B. Gracián, El Heróe: Discurso XII.

Acabei de reler a citação do jesuíta espanhol em A sátira e o engenho (1989), de João Adolfo Hansen, obra fundamental para o estudo da sátira no período barroco, sobretudo no que diz respeito à poesia satírica de Gregório de Matos, um dos meus poetas preferidos. Foi com Gracián, e com ele arrastando praticamente toda a poética e retórica clássicas, que também em Hansen li uma das concepções mais lúcidas da sátira no período barroco, no que diz respeito ao procedimento, alcance e eficácia:

(…) como a peste e como a fome, a sátira é guerra caritativa: fere para curar. Dramatização amplificadora de vícios, monstruosidade e mistura, é também encenação de fala de virtudes, racionalidade e harmonia. A sua “escandalosa virtude” –a fantasia desatada, a obscenidade crua, a inverossimilhança programática, a mistura horrorosa– tem a finalidade política de afetar, produzindo, persuadindo e movendo os afetos. A admiração estuporada do excesso e do monstro, fim sempre buscado pela elocução barroca, subordina-se à utilidade ponderada da persuasão que vícios e virtudes teatralizados podem produzir sobre um público determinado, a um tempo referente e receptor da sátira. (p. 28)

A sátira e o Engenho, 1989, João Adolfo Hansen
A sátira e o Engenho, 1989, João Adolfo Hansen

Percebi que para além das diferenças evidentes, sobretudo quanto à utilização constante da ironia e do sarcasmo, assente na metáfora e noutros figuras de transposição de sentido, os discursos satírico e moral partilham desígnios, uniformidade possível numa época anterior aos meados do século XIX. A extrema convencionalidade da sátira e do exemplo e a construção de uma imagem do homem e da sociedade com traços extremamente negativos constituem outros aspectos comuns que é necessário ter em consideração.
Foi essa cumplicidade que me ocupou no já longínquo ano de 2002, quando publiquei na Máthesis, revista da Faculdade de Letras da Universidade Católica, um artigo que preciso urgentemente de retomar e de rever, “Ufanismo, sátira e moralismo: visões barrocas” (pp. 253-270), conceitos em que apoiei a fundação de uma literatura luso-brasileira, e de que fiz depender a produção literária mais significativa e relevante do espaço da colónia brasileira.

João Adolfo Hansen, Varsóvia, Setembro 2009
João Adolfo Hansen, Varsóvia, Setembro 2009

Amanhã, 22 de Março, quando tiver de falar sobre A versão portuguesa do Diabo Coxo: da sátira ao moralismo, na oficina que vai ter lugar no Centro de Literatura Portuguesa, O Satírico, tudo isto volta a estar presente. A preferencial intenção moral e exemplar que caracterizou a produção ficcional barroca, se não insistiu na multiplicação de textos puramente satíricos, também não  impediu a sua produção. Com efeito, fez mais, num exercício sábio de claro aproveitamento e rentabilização de estratégias: aproveitou a imagem do homem e do mundo que a visão da sátira oferecia, profundamente negativa, para a pôr ao serviço da exemplaridade. Como se de um espelho se tratasse. Espelho meu, espelho meu, quem é mais ridículo do que eu?
Por outro lado, mais do que a corrosão de pessoas, classes, instituições, que pudesse decorrer da sátira, importa ter em conta a convencionalidade do discurso e das estratégias do “dizer mal”. Mas nem isto é novo. E o facto aplica-se igualmente ao governante e ao pícaro, ao religioso e ao poeta. E todos os aspetos passíveis de sátira da imagem humana estão no Diabo Coxo, retomando ao mesmo tempo o intuito exemplar da ficção romanesca barroca. A figura disforme do demónio, inventio sumptuosa, não tenta nem desvia, mas ensina e corrige, fazendo ver as consequências de actos pouco virtuosos, pondo diante dos olhos do estudante D. Cleofas, em primeira instância, e do leitor depois, as circunstâncias capazes de conduzir à loucura e à morte, contrapondo-lhes a virtude como valor incontestável.

Adequada por Bramão a uma ideia de «ser português», que se revela ortodoxa e conservadora, a irreverência limitou-se ao conceito do disforme «Diabo Coxo», pouco aproveitando do pícaro do Diablo Cojuelo de Guevara (1641) e da corrosão, mesmo que exemplar, do Le Diable Boiteux, de Lesage (1707 e 1727). Assim, o Diabo Coxo representa um evidente prolongamento das motivações da literatura ficcional barroca portuguesa.

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2 Comments Add yours

  1. virgílio antónio diz:

    Um post, para mim, duplamente interessante. 1.º conhecer que o barroco foi também um tempo de maneirismo satírico, procurando aplicar a contento a lição aristotélica de persuasão do auditório, no jogo de máscaras entre o ethos e o pathos. 2.º a noção da fundação da literatura luso-brasileira, ponto de partida, ou melhor, ponto de interrogação sobre as teses que Gilberto Freyre haveria de construir e defender no campo da antropologia e da sociologia. Parabéns pelo texto.

    1. Sara Augusto diz:

      Virgílio, obrigada pelo seu comentário, tão esclarecido. Um abraço para si e que o Estrada de Prata continue a corresponder ao seu interesse.

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