Teografias I: guerra interior, conversão e alegoria

Está disponível online o primeiro volume do projeto Revista Teografias, impresso em 2011. Naquela altura falei da Guerra Interior, de Matias de Andrade, ainda em preparação artigo com o título Guerra Interior: conversão e alegoria. Os objetivos foram cumpridos:

Com o estudo desta narrativa alegórica, de edificação, reflexão e didática religiosa, a Guerra Interior (1743), de Matias de Andrade, padre oratoriano, pretende‑se mostrar como o recurso à alegoria, procedimento corrente na literatura moral e exemplar do período barroco, permite a conjugação de um dos tópicos mais representativos da literatura e da arte com uma expressiva consciência didática e catequética. Desta relação resultou um texto que,cumprindo com os preceitos da doutrina sobre a conversão e a oração interior, apoiados nos Evangelhos e nos escritos dos Santos e dos Doutores da Igreja, recorre à ficção, à emblemática e outras estruturas visuais, como formas privilegiadas, resultantes da combinação eficaz entre o gosto e o preceito.

Fica a transcrição das conclusões, que reforçam a importância desta narrativa/tratado espiritual, no âmbito da literatura barroca portuguesa e justificam, em grande parte, a sua edição, acontecida em 2012, com a chancela da Quartzo Editora e do Centro de Literatura Portuguesa.

Esta leitura, mesmo que rápida e parcial, releva um conjunto de constantes que permitem a integração da Guerra Interior no seu contexto literário e religioso. Em primeiro lugar, a obra resulta de uma fusão entre a obra espiritual, o diálogo e a ficção, construindo o percurso da alma humana na sua vida no mundo através das três alegorias da viagem, do combate e dos desposórios finais. Acrescentando a descrição emblemática, pormenorizada nos adereços da prefiguração dos conceitos, encontramos uma estrutura repetida com assiduidade. Mesmo no que diz respeito à forma como se organiza o conteúdo catequético e a “história” do Soldado e da sua visão “interior”, já o Compêndio Narrativo do Peregrino da América tinha ensaiado a mesma estrutura com sucesso editorial considerável. Deste modo, favorecendo a imaginação, oferecia‑se a lição útil, que vem a ser o princípio motivador e organizador da literatura espiritual e alegórica. Mesmo tendo em conta a inclusão de uma forte “causalidade mágica”, o “licor” que o Mancebo dá a beber ao Soldado faz parte de um interessante conjunto de objetos, utilizados também noutras narrativas alegóricas, ou mesmo anteriormente, nas novelas pastoris do início do século XVII. Conclui‑se assim que, apesar do efeito visual da conceção das duas cidades, da descrição dos antagonistas e do percurso de conversão que é desenhado na Guerra Interior, esta obra do Padre Matias de Andrade insere‑se no âmbito da literatura espiritual produzida no seu tempo.
Contudo, não deixa de apresentar algumas notas suficientes para despertar o interesse de quem estuda estas matérias. Para a época conturbada de meados do século XVIII, em que o discurso racionalista ganhava espaço e as tendências teológicas abriam fissuras, entre o rigor jansenista e a passividade quietista, o Padre Matias de Andrade apresenta na Guerra Interior respostas simples para o homem religioso e inquieto. O principal aspeto reside na procura e no esforço para alcançar a “paz interior”, através de uma vivência íntima e individual com Deus. O processo é bem antigo: conhece‑te a ti mesmo. Esse longo percurso implica um sério exercício de reflexão e de meditação, de “lucidez espiritual”, capaz de discernir, por entre os meandros afetivos do quotidiano, uma vereda sinuosa que distinga a “verdade” da virtude do “engano” do vício. A insistência na oração, neste caso a oração mental, é fundamental como forma de vencer a fragilidade interior, a que se associa a “ação”, afastando a tentação pelo constante exercício das virtudes.
Optando por um modo de expressão convencional, renovado pela fantasia e pela riqueza do imaginário barroco, com um evidente reforço da sensibilidade, Matias de Andrade distinguiu a Vontade como protagonista, fazendo‑a Rainha. Na Psicomaquia, Prudêncio tinha mandado construir o templo da Alma e tinha escolhido a Sabedoria com a rainha das virtudes. A mudança é substancial, definindo um percurso bem específico: que pode a vontade, quando orientada pelo amor divino, chegar onde não chega o entendimento, apenas conhecendo, por incapacidade de total amor e abandono. Inclinando‑se perante uma figura de Cristo humanizado, recolhendo no Evangelho o valor da oração e dos atos, o indivíduo é convidado a conhecer‑se, a discernir, a exigir de si mesmo, a combater‑se, a conquistar essa “paz interior”, possibilidade de alguma vivência feliz no tempo que nos é dado. A Guerra Interior é, numa última leitura, o caminho do exercício literário para uma atitude de verdadeira conversão.

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