Morreu Raquel, morreu minha alegria

— Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!

Camões, Soneto “Sete anos de pastor Jacob servia”.

A novela moral, Orbe celeste, publicada em 1742 com o pseudónimo Leonarda Gil da Gama, da autoria de Soror Madalena da Glória, apresenta entre as páginas 207 e 259, cento e cinquenta oitavas com o título “Jacob, e Raquel”, “dois eistremos de amor, e fermozura” (pp. 207-259). A sua apresentação pretendia distrair Marfiza, a protagonista da história, da sua melancolia, mas não foi isso que aconteceu. Com efeito, perdurou no seu espírito o eco do lamento de Jacob sobre a morte de Raquel, evidenciando a intertextualidade não só com o soneto camoniano “Sete anos de pastor Jacob servia”, mas sobretudo com o soneto “O céu, a terra, o vento sossegado…”, com o lamento solitário e inconsequente do pescador Aónio sobre a morte da sua Ninfa, a que a natureza se mantém indiferente. Trata-se de uma reinterpretação que parte da conformação de Jacob e Raquel, transformando a história bíblica da descendência de Jacob, e das doze tribos de Israel (Génesis 29-35), numa história de claro desengano. As últimas estrofes, com evidentes ecos camonianos, “Morreu Raquel, morreu minha alegria” (estrofe CLIV), estão contaminadas pela retórica da morte, fazendo com que todo o brilho da natureza, eclipsado, participe da sombra escura da morte e da tristeza de Jacob. (actualizei a transcrição)

(…) Morreu Raquel, morreu minha alegria.

CLV
Pastores, que habitais por estes montes,
Serranas, que guardais o manso gado,
Vede meus olhos, desatadas fontes,
Ouvi de meu suspiro o triste brado,
Que cultos arrastando os Horizontes,
Até o mesmo Sol vejo enlutado,
Anoiteceu a luz, cerrou-se o dia,
Ai, Raquel, adorada companhia.

CLVI
Vinde ver a desmaiada fermozura,
Morta a beleza, que minha alma adora,
Amortalhada a luz na sombra escura,
Macilento o candor da bela Aurora,
Vereis de um fino amor a fé mais pura,
O coração desfeito no que chora,
Hoje a morte me fora só socorro,
Morta Raquel, também com ela morro.

CLVII
Ó campos verdes em quem tive atento,
Nos favores as ditas desejadas,
Hoje verdugos são do pensamento,
As horas, que já foram tão amadas,
Ó campos de Belem, duro tormento!
Que em vós via as venturas disgraçadas,
Já morta a vida, de que me animava,
Já sem Raquel, a quem eu mais amava.

CLVIII
Como fugis de ouvir meus ais sentidos,
Rios, aves, pastores, plantas, flores,
Se a compaixão vos move enternecidos,
Minha dor escutai em tais rigores,
Desfeito o coração entre os gemidos,
Morta, Raquel emprego a meus amores,
Ó infeliz noite! Ó triste dia!
E o eco só responde, triste dia!

CLIX
Mais quisera dizer, porém o pranto
Suprirá quanto a dor me dificulta,
Que a pena embarga em sentimento tanto,
Vida que com Raquel já se sepulta,
E em tanta mágoa, em tão mortal quebranto,
A vida só a morte me consulta;
Ai, infeliz destino! Ai, pedra fria!
Ai, eclipsada luz! Ai, triste dia!

 

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