Still

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Há nestes dias, quando o frio faz teias entre o quarto e a sala e o cheiro das lareiras se estende pelas ruas, uma memória pungente da felicidade. Hesitei em escrever isto. Talvez devesse ter escrito “memória pungente dos momentos felizes”, mas isso é pouco. Talvez não nos sejam dados a viver muito e muitas vezes estes estados de bem aventurança, porque o são mesmo, quase estados de revelação, mas quando acontecem são tão corpóreos que pensamos que estiveram sempre ali e não os víamos. Aflige-me esta ideia de felicidade existente num universo paralelo, apenas entrevista, sentida e vivida, revelada em golpes de luz, em sorrisos ou num abraço, num verso ou numa nota de piano e em muito mais. Por isso, há nestes dias, quando as noites são maiores, uma memória mais viva da felicidade… cultivo essa memória com toda a vontade de que sou capaz, para não deixar nunca de reconhecê-la. Para que ela nunca me passe ao lado, nesse mundo estranho onde vive.

Quando a Joaninha se virou para mim, naquela tarde de verão, quase parei. A luz parecia que se movia em volta dela e eu sabia que queria torná-la eterna, a ela, quase anjo, à luz, fulgurante, a mim mesma, aprendiz de outros mundos.

Hoje, quando senti o frio envolver-me, pareceu-me que tudo estava errado. Neste fulgor, revelado naquele instante, de uma forma que me deixou atordoada, tive a certeza que somos feitos de luz e que para a luz voltaremos.

Still sara augusto

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6 Comments Add yours

  1. nina luz diz:

    Mo meu regresso, o prazer inaudito de a reencontrar, Sara… Sabe, apetece-me roubar-lhe aquela linha fantástica, e quase que tenho uns ciúmes terríveis de nao me ter lembrado a mim… Um beijinho, xx.

    1. Sara Augusto diz:

      Para si, Nina, a banda sonora que o meu amigo Lorena escolheu para este artigo: http://www.youtube.com/watch?v=-Vnk_j1iKMA

  2. Adriane Ribeiro Guimarães diz:

    A fotografia ficou muito bem casada com o texto e com a música, e ambos são feitos de uma mesma substância. Mas reparei que a Joaninha parece habitar um quadro de Van Gogh. A paisagem de fundo não poderia ter ficado melhor e o seu olhar nos revela uma certa curiosidade infantil. Ela mesma se propõe a interrogar a luz. E as sombras todas se afastam quando do outro lado da lente, um outro ser de luz, completa a sua claridade!

    1. Sara Augusto diz:

      Parti da fotografia para a impressão de frio que estava a ter. Ou talvez tenha procurado conforto numa fotografia, uma das melhores que já consegui. Um abraço, meu amigo.

  3. nina luz diz:

    Perfeita, uma e outra, e ambas, a escolha do seu amigo, e tudo junto… Obrigada – porque depois do comentário acima, já pouco mais haverá a dizer (excepto talvez um sorriso enorme… e como é que a Sara sabia que eu gosto tanto de Goldfrapp?!? 😀 )…

    1. Impossível não gostar, querida… 🙂

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