Ut pictura fictio

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[A Riqueza] Era uma mulher de luzidos olhos, prateada tez, dourados cabelos, vestia de tela de prata, e assim manto como roupa bordava de botões de ouro, gala que estudar-se-lhe o ser, fora injuria, a cabeça era um tesouro de joias, e quanto mais leve na consideração, mais capaz de fazia para o peso.

Soror Maria do Céu, Enganos do Bosque, Desenganos do Rio, 1741, p. 82.

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Simon Vouet, Alegoria da Riqueza, 1633, Paris, Louvre
Simon Vouet, Alegoria da Riqueza, 1633, Paris, Louvre

O nº 19 da revista online da Associação Internacional de Lusitanistas, Veredas (AIL, Santiago de Compostela, 2013) acabou de ser disponibilizado, reunindo alguns dos trabalhos do colóquio de Budapeste, acontecido precisamente há um ano.

Entre as páginas 177 e 200, está publicado o meu artigo “Ut pictura fictio. Ficção romanesca do maneirismo e do barroco”.  Foi um ensaio fundamental para estruturar algumas ideias no que diz respeito à relação sempre tão profícua entre imagem e texto, entre emblemática e ficção. Assim:

A produção ficcional barroca levanta questões pertinentes no que diz respeito à representação alegórica. Com efeito, a alegoria constitui um dos seus elementos constantes, mas tem raízes profundas tanto na tradição clássica como na tradição medieval, de que o barroco representa uma síntese complexa. Desta tradição conjunta vem o conceito de alegoria como tropus retórico, que se manteve nos manuais até ao século XVII. Este fundamenta a alegoria na translatio, facto potenciado sobretudo pela analogia entre dois universos, o da ficção e o da leitura. Mas essa tradição levantou outros aspetos nucleares: a relação entre fictio e alegoria, a fuga ao discurso mimético, a extrema capacidade visual e plástica, e a função didático-moral.
Tendo em conta estes aspetos, a alegoria permitiu a arrumação cronológica e genológica da ficção romanesca produzida em Portugal entre 1600 e 1750, definindo a estrutura narrativa e a sua funcionalidade no contexto literário. Permitiu ainda considerar a visualidade como característica essencial, pelo recurso aos emblemas, à descrição, à ecfrasis e à metáfora, que proporcionam a varietas e o ornatus, determinantes para conseguir o duplo objectivo do prodesse ac delectare.

Palavras-chave: Literatura Barroca; Alegoria; Ficção; Ut Pictura Poesis; Prodesse ac Delectare; Paratexto; Emblema.

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