Cidades estranhas

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A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata.
Italo Calvino, As cidades invisíveis.

 

Continuo a escrita de viagens. A memória torna-se mais forte mas também mais apurada. Foi a segunda crónica publicada no Rua Direita.

As cidades são estranhas.

As cidades são estranhas. Nunca são iguais. As horas dão-lhes uma configuração tão distinta que me interrogo sobre o espaço que percorro em cada altura. Onde estou! Este sítio desconheço…, dizia Cláudio Manuel da Costa, repetindo em fins de Setecentos um dos tópicos mais significativos da inquietação maneirista. Entendi-o bem, mais tarde, quando tive de recuperar cidades de uma memória menos afortunada e preenchê-las comigo e com a minha espécie de felicidade. Hoje tenho cidades minhas, que corri a pé, dias seguidos. E elas têm ruas que ainda me fazem sorrir e que ainda me enchem de nostalgia.

Já era noite cerrada quando o autocarro me deixou na George Square, em Glasgow. Sábado, último dia de novembro, sem chuva, uma árvore de Natal enorme. Misturei-me com a alegria das gentes, fui às compras, passeei devagar pelas ruas e voltei para o hotel. No metro não pude deixar de reparar no brilho das roupas, nos saltos altos, no kilt elegante. Saint Andrew’s Day, lembrei-me. E apeteceu-me muito sair naquela noite, usar um vestido e morrer de frio por isso… mas viajo muitas vezes sozinha e sou cuidadosa. Regressei, comi, arrumei a mala. Custou-me a adormecer. O despertador tocou às duas horas e meia da noite.

Foram quinze minutos de táxi até à Buchanan Station, possivelmente a viagem mais irreal das minhas madrugadas. A cidade apagada do lustre e das luzes, as sombras pelos passeios, cosidas com a parede. O taxista, alto e magro, com um gorro enfiado pela cabeça com caracóis arruivados que escapavam aqui e ali, falou o tempo todo. No início respondi para ser simpática, nem sei bem a quê, verdade seja dita, que não estava disposta a fazer o mínimo esforço para entender aquele escocês maluco àquela hora da minha vida. Mas depois comecei a prestar atenção quando disse duas palavras que me soaram vagamente a português. Sim, no início a conversa começara com a pergunta que todos fizeram, de onde era eu. E segui a linha da história: o meu taxista escocês, ruivo e de olhos claros, estava a aprender português com o filho. As melhores férias da sua vida tinham sido no Algarve onde se perdeu de amores por uma mulher linda e de mau feitio; ele pedia misericórdia em inglês, ela destratava-o em português bem temperado. Fizeram um filho, esse mesmo que vivia consigo na Escócia, mas queriam voltar para as terras quentes do sul, onde fui e hei de ser feliz, onde hei de ser capaz de falar com as pessoas na língua delas e ser um deles… Nesta altura já estava bem acordada. Senti-lhe os olhos no espelho, é casada? tem filhos? que idade tem? Ri-me: nascemos no mesmo ano, com diferença de cinco dias. Ainda lhe notei que devia ter cuidado com o signo marado a que pertencíamos; gostávamos da ordem e da organização mas éramos tramados para fazer asneiras. Deixou-me na estação, com um abraço, bye, my dear, good luck.

Tinha meia hora de espera até às quatro horas da manhã. Sentei-me num banco, pus os pés em cima da mala, enrolei as alças da mochila no braço, encostei a cabeça. Tenho de voltar a esta terra. Dou-me bem com esta gente. Pena este frio. Credo.

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