Inferno de martyrios

***

Lidar com miscelâneas pode ser a coisa mais surpreendente do mundo. Hoje é um desses dias de surpresa. Tenho estudado a literatura de viagens, centrada essencialmente nas viagens no sul da Europa, tendo sobretudo Roma como destino privilegiado, cidade dos papas, centro do mundo, a Urbs Aeterna. Por isso nunca deixo de lado referências de relatos de viagem, como aconteceu com esta Relação da viagem que fez o excellentissimo e reverendissimo Bispo D. Fr. João de Faro para a sua sé da cidade de Ribeira Grande, ilha de Santiago de Cabo Verde (…), e dada à luz pelo padre Fr. Jozé de Borba (…). Lisboa, na officina de Miguel Manescal da Costa, 1641.

Trata-se de um opúsculo com quinze páginas, que conta os trabalhos que o reverendíssimo bispo e a sua comitiva sofreram com o naufrágio da corveta São Sebastião, tendo saído de Lisboa a 14 de janeiro de 1741. Depois de passar as Canárias, o tempo e o mar embraveceram, mas viajaram para Serra Leoa. A 21 de fevereiro deram fundo, junto à costa, perdidos, sem reconhecer onde estavam tão grande era a rebentação e os nevoeiros. Nessa noite naufragaram, numa noite que apesar de tudo parecia benigna e calma. Embraveceu-se novamente o mar e salvaram-se aqueles que com esforço chegaram à praia, enquanto a corveta se desfazia em pedaços.

Aportámos em terra molhados, famintos, despidos, e desconsolados, mas em parte alegres, porque nos viamos nella: huns já pondo-se de joelhos na mesma, outros beijando-a como cousa do Ceo; porém era porque ainda não sabíamos verdadeiramente que havia de ser como um Inferno de martyrios e necessidade para todos. (p. 7)

Reféns de gentios, exaustos, ainda assim o narrador descreve a aldeia e as cerimónias fúnebres (pp. 8-9):

Nesta povoação ha algumas vacas, bois, cabras, e galinhas. Porém o dito Gentio nã usa deste mantimento, senão nas funções de mortes, se o defunto he daquelles, que tem estes viventes; mas como nestas occasiões se ajuntão muitos, não chega muitas vezes a todos. Somos nós porém testemunhas de vista, que aquilo de que mais gostão, e o melhor bocadinho para eles, são as tripas, que tiradas assim cheas, as passão pelo ar do fogo, e com tudo que tem dentro, as comem. Os seus enterros são barbaros. Morto qualquer negro, lhe armão hum tabernaculo da altura de hum homem, composto de muitos xifres, e caudas de bois, aonde assentão o defunto. Dos dous lados destes se sentão juntamente com elle dous negros, se he homem, e negras, se he molher, que continuamente estão fazendo varias perguntas ao defunto, que a nosso entender lhe estão perguntando para que morreo, que se levante, porque tem muito arroz, vacas, cabras, etc. Ao mesmo tempo anda infinidade de negros e negras com muitas danças, correndo para traz, e dahi para diante direitos ao defunto, com grande uivos lhe estão dando com lama sobre a cabeça. E quando vão chegando, o ameação com as suas zagayas, para ver se com o medo dellas o dito defunto resuscita. Nesta diligencia andão dous dias, e huma noite sem cessar. Quando porém já o querem enterrar, lhe preparão huma armação a modo de tumba com muitos xifres, e caudas de vaca. Nesta põem o defunto deitado de barriga com as mãos de fora, e em cada huma sua zagaya. Quatro negros o põem às costas como canaga, e o acompanha quasi todo o povo, hindo uivando, e o levão a despedir das suas vacas, amigos, e parentes, os quaes o recebem, deitando-lhe arroz, matando-lhe galinhas e cabras. E para receber o defunto esta honra, recuam trez vezes para traz, e outras tantas para diante, correndo. O mesmo fazem as suas vacas, a quem logo cortão as caudas, e as põem sobre a tumba; despedido destas, as matão sem mais demora. Acabada esta diligência, levão o defunto a enterrar com huma infernal armonia, e na cova lhe deitão arroz, e tudo o que era do seu uso: E se he negro, que tem muito arroz continuão muitas negras a hir corar-lhe à porta da sua cabana os dias que elle dura até se acabar. Cada negro tem as mulheres que pode sustentar; não observão ley certa, nem tem entre si respeito. He gente barbara, indomita, cruel e de animos vilissimos. Andão despidos totalmente até casarem, e depois usão de huns malafetes tecidos de palha, com que somente cobrem as vergonhas. Dormem na arêa, e outros em couros de bois, descanço, de que nós usamos também.

Resumindo, o Bispo morreu sem conseguir chegar a Santiago, não tendo resistido a tanta dor e sacrifício. Da larga comitiva chegaram cinco a Cabo Verde. No final, avisa-se que o relato apenas quer lembrar os sacrifícios valerosos de quem leva a cabo estas missões.

Foi a primeira citação que me trouxe aqui. Li-a como alegoria.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s