Onze horas

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Sexta crónica no Rua Direita.

Onze horas

Comprei o bilhete de avião rapidamente e só depois percebi que o congresso tinha lugar numa cidade a 500 quilómetros a norte de Bucareste. Sim… esta é uma daquelas coisas que pode acontecer a pessoas desatentas como eu. A viagem de avião para Cluj Napoca, no coração da Transilvânia, foi rápida e pacífica mas, depois de dois dias intensos de trabalho, tinha onze horas de comboio para regressar à capital.

Arrumei a mochila com tudo o que precisava, portátil, caderno, livro, telemóvel. Tinha intenção de terminar um artigo, acabar o Saramago que tinha em mãos, escrever mais umas memórias. Amanhecia ainda quando entrei no comboio, velho mas aquecido. O nevoeiro filtrava a claridade e pareciam-me corvos aquelas aves negras que distinguia por cima dos postes. O compartimento ia cheio. Um casal, sentado junto da janela; à porta duas senhoras, uma delas pequenina e elegante e irrequieta. Ao meio estava eu e à minha frente um moço com um telemóvel que não lhe saiu das mãos o tempo todo. Aconcheguei-me no casaco e adormeci, embalada pelo comboio e pelas vozes calmas que falavam uma língua que eu não entendia. Lembro-me que adormeci várias vezes naquele dia, mas nem isso fez com que as onze horas de viagem passassem mais depressa. Onze horas bem medidas.

Enfim, escrevi pouco, não li nada, nem o romance nem o artigo. Passei horas no corredor, à janela, a lamentar cada fotografia tremelicada que saía da minha maquininha de viagens. E atravessei a Transilvânia, campos e campos a perder de vista, aldeias todas iguaizinhas, campanários no meio de cada uma, animais, carroças, picotas e rebanhos, fábricas abandonadas, edifícios como fantasmas, tudo a passar à minha frente a uma velocidade vagarosa e envelhecida. Devo ter ouvido histórias fantásticas em romeno… Havia um senhor com uns olhos azuis tão brilhantes que eu me forcei a desviar o olhar deles. Instalou-se comigo à janela e, como eu acenava e sorria a cada entoação dele, conversou muito tempo, apontando para os campos que atravessávamos. Depois dividiu comigo um bolo doce e quando saiu, muitas horas antes de mim, veio despedir-se. Voltei ao compartimento. Ia por lá uma conversa animada e não pararam por minha causa. Percebi que eu era o tema da conversa quando vi o Saramago nas mãos da senhora elegante. Devem-me ter perguntado coisas… pensei que queriam saber de mim e contei-lhes das minhas viagens, do meu trabalho, da minha vida, da minha família, das mensagens que trocava por telemóvel e que me faziam sorrir e chorar ao mesmo tempo… ouviram-me silenciosamente até eu para de falar e beber uma garrafa de água. Ri-me e abanei a cabeça, avaliando a minha tontice e a deles. Comentaram uns com os outros e acabaram por se rir comigo… ou de mim, mas era o mesmo. E depois dei-lhes dos meus pretzels salgados e com sementes e comi das maçãs do casal da janela. Várias vezes se juntaram a mim na janela do corredor, a minha vista preferida para a Transilvânia. Escrevi um agradecimento nas costas de um postal do castelo de Bran, coloquei-o dentro das Intermitências da Morte e dei-o à senhora pequenina e elegante.

Quando entardeceu, uma cor doce pousou sobre a paisagem. Não saí da janela até nascer a lua e ainda me faltavam mais cinco horas naquele comboio. De noite o tempo demora mais a passar e tenho um secreto medo, que se avoluma sem controlo, quando não sei onde estou. Cheguei sozinha a Bucuresti Nord. Desci devagar da carruagem, como se estivesse num filme, comi qualquer coisa numa loja da estação e caminhei para o hotel. Tivera tempo para pensar e não o tinha feito. Mas vi, vi tanto.

onze horas sara augusto 5

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