Aquário de memórias

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Entre imagens é uma série de documentários que a RTP2 está a passar às segundas feiras. No dia 18 foi a vez do episódio sobre o trabalho de José Manuel Rodrigues. Ia vendo, ouvindo e fazendo mais uma coisa qualquer, mas fui ficando presa quando reconheci algumas coisas de que também tenho alguma (pouca) experiência.

A série de fotografias que tenho vindo a publicar no facebook começou por ser apenas um exercício particular de reflexão sobre a vivência religiosa nestes quarenta dias da Quaresma. Passei algumas horas a fotografar num cemitério. Não queria que essa fosse a marca principal, nem queria grandes planos descritivos e envolventes. Fotografar o pormenor, o mínimo, o insólito, “desespacializando” a fotografia: era essa a minha intenção. O efeito desta opção foi a substituição de um espaço, de ângulos perceptíveis desse espaço, com características tão específicas, por espaços múltiplos que foram ganhando vida, que se tornaram independentes da matriz. Por outro lado, a escolha do preto e branco, o domínio da pedra e do calcário, do musgo e das marcas do tempo, os símbolos das flores e dos anjos, dos frisos e do ferro forjado, estabelecem ligações entre as fotografias, estabelecendo elos temáticos e formais.

Dizia José Manuel Rodrigues que quando nos aproximamos mais do motivo a fotografar o separamos da realidade e ele ganha uma nova vida, transforma-se numa coisa diferente, com um sentido autónomo. Concordo. Construí alguns dos meus horti conclusi desta forma e até escrevi sobre isso no blogue. O mínimo, quase despercebido, torna-se dominante. O figurado, de contornos bem estabelecidos, que parte de alguma coisa maior onde tinha determinado sentido, torna-se muitas vezes abstracto e a cor e as formas oferecem leituras distintas e variadas.

Escolhi duas fotografias, mas talvez nem sejam o melhor exemplo. Contudo, porque achei que a cor era nelas uma mais-valia, e que não poderiam ser publicadas em preto e branco, e porque as acho extremamente bonitas, aqui ficam. A fotografia da janela azul na parede de um jazigo tornou-se um aquário impressionista de memórias.

aquario sara augusto 1

aquario sara augusto 2

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