Salamanca ou a Memória do Minotauro

E porque tudo nasce e lacera o teu corpo de embriaguez,
e tudo é espanto e paisagens abertas – tu és a boca do sol.

João Rasteiro, Salamanca ou a Memória do Minotauro, 2014.

 

Escolhi este poema do livro porque foi aquele que o João já escolheu para uma das fotografias deste grupo, agora a preto e branco. Fiquei subitamente indecisa com esta opção. Se eu falar em “cântaros de mel” será perceptível… assim, a preto e branco? Ou nos “degraus das sete cores”? Talvez… a cor nunca está ausente da memória. Muito menos do gesto carinhoso, sempre, desses olhos de água, “pedras translúcidas”, “claro enigma”, “lágrimas no ventre da cidade”.

Vejo os poemas como leio as fotografias. Devagar, saboreando a forma como as palavras se encadeiam e como as pedras de desenham. Mas em todas o fulgor antigo do oiro e do labirinto. Sim, esse labirinto…  “roubaste-me o coração incrédulo” nesse labirinto, cidade de puro oiro.

Fica um dos meus poemas preferidos, o de “Sábado”, o das catedrais rendadas, da vertigem, da divina plenitude, dos poetas blasfemos e dos gestos irredutíveis da morte.

Vi o relâmpago disposto nas candeias
do sangue o caminho onde se arde na forja
com que as mãos tecem oiro. A bordadura
das catedrais na memória solidificando-se
no lado vertiginoso da boca. As entranhas
oleando-se sob o granito dos dias ancestrais.
Murmúrios caindo na rua de los libreros.
O puro espaço em si o vazio e a plenitude
com que deus susteve o verbo. A blasfémia
do poeta no gesto imperceptível da morte.

 

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