Hato

Hato, 23 de agosto de 2017

Até dia 23 não sabia sequer que era nome de tufão. E também não consigo lembrar-me da razão por que não saí de casa nessa manhã, enquanto o aviso de tufão se mantinha no grau 3, e não fui buscar os livros à escola como tinha pensado fazer no dia anterior. O certo é que fiquei em casa e da segurança do meu 22º andar conheci Hato, deus alado, solto em fúria. Não era o meu primeiro tufão em Macau. Mas foi.

Em muito pouco tempo, cresceu o vento e a chuva e o barulho de coisas a separarem-se e a retorcerem-se. Pela janela entreaberta, fui registando como dobrava e arrancava as árvores, como arrastava placas de metal e separadores, como envolvia contentores e os atirava pelo descampado, como empurrou uma grua de uma altura de cinquenta andares. Com o meu apartamento escondido num canto, mais do que sentir eu via o vento. E vi-o crescer de sinal 8 para 9, cada vez mais forte. E subitamente amainou.

Pensei que tinha fome e comi. Quando voltei a aproximar-me da janela vi que Hato tinha voltado. Confirmei nos serviços de meteorologia o sinal 10. O tufão voltava e voltava pior. Mudara de direcção e tinha-o de frente. Soube que o que estava a ver e a sentir era único. Já não eram rajadas, eram massas de ar em movimento. Pareciam ondas de choque que batiam contra o vidro e desfocavam os contornos dos prédios à minha frente.

Fiquei quieta. Muito quieta. Como se o mundo se acabasse lá fora, apenas lá fora, e eu tudo visse à distância, como se fosse um filme, como se fosse um telejornal com notícias de um país distante, onde em vez de luz se via a destruição. E eu não estivesse ali, nem a minha janela pudesse rebentar a qualquer momento, nem Hato entrar-me dentro do quarto e tudo arrastar para aquele rodopio lento.

Devagar foi passando. Esperei e depois desci os vinte e dois andares, já sem luz, nem água, nem internet. Fui a pé buscar os livros que precisava à universidade, fotografei os caminhos do meu dia a dia que Hato também percorrera, agora uma amálgama de árvores trucidadas, ferros retorcidos e vidros partidos, os meus jardins destruídos e fechados. Ainda sem luz, e sem elevador, e sem coragem de subir até casa, com livros, máquina e garrafas de água na mochila, sentei-me nas escadas da escola em frente do prédio e revi as aulas para o dia seguinte. Aceitei uma cerveja dos chineses que se sentaram ao meu lado e depois resolvi subir. Mais tarde veio a água e a luz.

Foi isto. Hato olhou-me e passou. Do outro lado estava Macau, presa mais frágil e apetecível. E eu vi depois nas notícias, como se tudo tivesse acontecido num país distante.

© Sara Augusto 2017 Taipa, Macau, 23-8-017

 

 

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