Infância perdida

Como lhe hei-de explicar isto, senhor presidente da junta, o silêncio de uma casa carbonizada. (2017: 12)

As coincidências ocorrem quando menos esperamos.

Ainda tenho nos olhos as fotografias do Miguel Valle de Figueiredo quando começo a ler o livro de contos da Ana Margarida de Carvalho, Pequenos delírios domésticos, publicado pela Relógio d’Água no final de 2017, depois de ter lido os dois romances premiados em 2013 e 2016, Que importa a fúria do mar Não se pode morar nos olhos de um gato. Tenho muito a dizer sobre estes romances, mas não agora.

Depois da epígrafe do Sérgio Godinho, a dedicatória chamou-me a atenção:

À memória da Casa dos meus bisavós,
de onde sempre parti, aonde sempre regressarei.

(desaparecida nos incêndios de Outubro de 2017)

Os contos começam depois de “Chão Zero”, um texto que leio com as fotografias do Miguel ao lado e para o qual convoco a minha memória da Mata do Vale, queimada, cortados os pinheiros enegrecidos.

Perco-me cá dentro, entre restos, sobras, remanescências vãs, numa casa sem bússola, mas se conseguisse subir ao sótão talvez avistasse de lá a serra e a neve no cume, e reconhecia-te outra vez. (p. 11)

Começar a leitura dos contos com esta introdução, biograficamente dolorosa, é perceber como a memória, tema que é desenvolvido de formas distintas em cada uma das narrativas, se transforma e passa a ser feita de inefabilidades, tão íntimas e tão humanas e por isso efémeras e eternas ao mesmo tempo. “Nenhum óbito a declarar, graças a Deus, ninguém, nada, nem um gato aflito esquecido dentro de portas, nem uma ovelha, nem uma galinha… Graças a Deus, apenas um pedaço de existência que se foi para sempre” (p. 13)

A introdução de Ana Margarida de Carvalho à histórias de Manuel, Saadi, Isabel…  mais ainda no conto “E voltámos para casa mas por outro caminho”, podia acompanhar cada uma das fotografias da exposição do Miguel Valle de Figueiredo na Acert a partir do dia 24 de fevereiro. Se eu estivesse do outro lado do mundo também lá iria dizer-te que sim, Miguel, que a perda é dolorosamente subjectiva para caber em formulários. Que é mais do que isso e que nem isso se tem.

© Miguel valle de Figueiredo 2018

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2 Comments Add yours

  1. Helena Rocha Goncalves diz:

    Vou ler! E ver a exposição! É isso que fazes! Com delicadeza, tocar a alma e fazer querer mais! Intenso! E vou partilhar, se aqui o meu mobile deixar!

  2. Sara Augusto diz:

    Gosto mais dos romances do que dos contos, Helena. A inauguração da exposição é no dia 24. Dá um abraço meu ao Miguel Valle de Figueiredo :).

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