A rose is a rose is a rose et coetera

E nesses primordiais cabelos precocemente cosidos onde poderei afagar as sobras calcinadas do amor, a timidez da luz, um primeiro movimento, uma mãe?   Ano de 2015. Voltei a Coimbra e encontrei-me com o João. Tinha o manuscrito de um novo livro. Li-o e chorei. Falei-lhe do trabalho de fotografia documental que tinha feito com…

Insolitus

Há um poema de Eugénio de Andrade que fala do insólito e não consigo encontrá-lo. Ele diria tudo o que eu tinha para dizer desta fotografia e da impressão que voltei a ter agora, quase cinco meses depois do registo. Mas não encontro… é uma pena. © Sara Augusto, 2016, Serra da Estrela.

A solidão não é uma árvore no meio da planície

Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio da planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a…

Em silêncio no céu onde o sol está

Hallelujah! Hallelujah! In Ewigkeit! Começam a tornar-se compridas as sombras da tarde, o crepúsculo aproxima-se devagar, também ele em passo de procissão, aos poucos o céu perde o vivo azul do dia, agora é cor de pérola, porém naquele lado de além, o sol, já escondido por trás das copas das árvores, nas colinas distantes,…

Narciso

Esse sou eu! Sinto; não me ilude a imagem dúbia. Ardo de amor por mim, faço o fogo que sofro. Que faço? Rogo ou sou rogado? A quem rogar? Quero o que está em mim; posse que me faz pobre.  Ovídio, Metamorfoses, Livro III, vv. 463-466 © Sara Augusto, 2016 Da série Fabulas.    …

White big thing

Na verdade, eu não sei que seja aquela coisa branca enorme que agora está no meu céu de sempre. Mas é imensa e bonita. Queria ser o primeiro pássaro a voar sobre ela, a primeira gaivota a pisar a areia daquela praia. “Pensamentos da gaivota que olhava a lua com o mesmo espanto da primeira…

Alma de sete cores

Tinha o céu da minha alma as sete cores, valia-me este mundo um paraíso, destilava-me a alma um doce riso, debaixo de meus pés brotavam flores! (João de Deus, “A Vida”) No dia 26 de fevereiro vou falar sobre João de Deus, a “alma de sete cores”, numa das salas do Museu Nacional Grão Vasco,…

O conto da aranha

 Parou por breves segundos e teve uma iluminação, se é que uma aranha tem destas coisas que se abrem no espírito. Não quero mais uma ordem na vida e não posso viver no caos. Parei e olhei-a com mais atenção. Que raio, aranha, cala-te, cala-te, e enteia-te. Pareceu-me que sorria. Não sei bem como é que ela…

Salamanca ou a Memória do Minotauro

E porque tudo nasce e lacera o teu corpo de embriaguez, e tudo é espanto e paisagens abertas – tu és a boca do sol. João Rasteiro, Salamanca ou a Memória do Minotauro, 2014.   Escolhi este poema do livro porque foi aquele que o João já escolheu para uma das fotografias deste grupo, agora…

The question

*** Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. Machado…

Atlas do Corpo e da Imaginação

*** A “fonte do pensamento genuíno é o espanto, espanto por, e perante o ser. O seu desenvolvimento é essa cuidada tradução do espanto em acção que é o questionar…” G. Steiner, Heidegger, Dom Quixote, 1990, p. 53   Terceira crónica publicada no Correio Beirão, 14 de março. Atlas do Corpo e da Imaginação  Que…

Atlas do corpo e da imaginação

“O que as leis acalmam é esse instinto violento que domina as relações entre indivíduos e corpos. Acalmar, porém, não é eliminar, mas adiar.” Atlas do corpo e da imaginação. Teoria, fragmentos e imagens, 2013: 73   É possível que vá ler o Atlas do corpo e da imaginação todinho de seguida, mas por agora contento-me…